quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Povo de coração grande

Ao rápido e suave aperto de mão, segue-se uma ligeira vénia enquanto a mão que apertámos viaja com singeleza até ao peito da pessoa que estamos a cumprimentar. Todo o gesto é feito com simplicidade e, simultaneamente, um toque elegante de uma certa teatralidade plena de simpatia. É desta forma que o timorense cumprimenta o maun ou a mana. A mão vai ao peito como que dizendo que a pessoa está no coração do outro. É desta forma que nos têm cumprimentado a nós também. Mas as atitudes de simpatia estendem-se muito para lá do cumprimento: sentimos que somos mesmo acarinhados pelas pessoas com quem temos tido mais proximidade.

Suspeito que o povo timorense é um povo de coração grande: no coração do timorense há espaço para todos os que vêm por bem!

Eis outro sinal de que o coração deste povo é grande: impressiona testemunhar a cooperação e a boa relação que existe hoje entre timorenses e indonésios. Não sei se noutras esferas (na esfera política, por exemplo) a situação é idêntica, mas ao nível do quotidiano não se sente qualquer amargura causada pelo passado. Os indonésios que aqui trabalham, lado a lado com os timorenses, são tratados como iguais, como amigos. 

A história do século XX trouxe-nos muitos conflitos insanáveis entre países, povos e etnias cuja resolução e reconciliação se têm demonstrado muito complexas e lentas. Neste sentido, os povos do mundo têm algo a aprender com o exemplo timorense. É mesmo um povo de coração grande. Acredito que em todos os povos, em todas as culturas, em todas as histórias há reflexos do carácter de Deus, há expressões do plano divino que consiste na reconciliação de todas as coisas. No povo timorense esse reflexo parece-me ser muito visível e muito bonito. 

"Somos semelhantes a animais quando matamos;
somos semelhantes a homens quando julgamos
Somos semelhantes a Deus quando perdoamos."

(autor desconhecido)

sábado, 25 de outubro de 2014

Viagem a Atelari

Fomos convidados para viajar até Atelari e assistir à inauguração de um monumento de homenagem aos heróis da libertação de Timor. Fomos numa pequena comitiva até ao distrito de Baucau, o terceiro mais populoso (a seguir a Díli e a Ermera).

Saímos de Díli na Sexta-feira, já noite. "Aquilo são estrelas ou são luzes?"
A minha dúvida é facilmente compreendida se tentarem imaginar um céu escuro como montanhas e estrelas brilhantes como lâmpadas. As estrelas chegavam ao chão, ou então as montanhas chegavam ao céu! Não dava para ter a certeza.
Subimos, subimos, subimos e, de repente, ao nosso lado e lá em baixo, um tapete luminoso, Díli. Como uma outra qualquer capital do mundo. Cheia de luzes, cheia de cores.
A estrada era estreita e sinuosa, mas aqui chamam-lhe "auto-estrada" e é a melhor que há e que a topografia permite, e tem alcatrão. Depois de duas horas e meia, chegámos a Baucau. O nosso hotel chamava-se "Farmácia Bonita". Não sei porquê.
No dia seguinte a viagem até Atelari, o destino final, começou cedo. 7h00 da manhã e já estávamos na estrada.


"Olha ali aquelas montanhas tão grandes! Como é que se vai para ali?" - ao mesmo tempo que fiz a pergunta,  alguma coisa me dizia que era para ali que nós íamos. Mas como, se tão grandes e tão perto das nuvens tão altas?


Passada uma hora, as montanhas já pareciam mais pequenas, e as nuvens estavam mais perto. Também ainda estão a pensar no "como"? Assim:


Duas horas passadas, chegámos.
Em Atelari tínhamos uma recepção calorosa à nossa espera. Como os afetos não se fotografam, ficamos pela comida. Ora vejam:


Milho, talas, batata doce roxa e kumbili. Tirando o milho, as outras três coisas são tubérculos. Posso dizer-vos que esta batata doce é uma especialidade!

Seguimos a pé para a cerimónia. Quando chegámos, os veteranos das FALINTIL estavam à espera para as boas vindas a todos. (As FALINTIL eram as Forças Armadas de Libertação e Independência de Timor-Leste e eram o braço armado do partido de resistência, FRETILIN. Hoje estão integradas nas Forças de Defesa de Timor-Leste - FDTL.)



Depois de todos passarmos, seguiram marcha atrás de nós, sempre ao som dos tambores. Homens e mulheres que combateram nas guerrilhas, e também alguns jovens, a representarem os exércitos tradicionais.


Durante uma cerimónia de várias horas sentimo-nos os meninos à volta da fogueira. A aprender como se ganha uma bandeira e a saber o que custou a liberdade.
"Liberdade é responsabilidade.", ouviu-se. "A nossa luta continua! Agora lutamos pelo desenvolvimento." E mais: "A educação é a chave para o desenvolvimento! Educação, acção, progresso." Em tom de palavras de ordem, os sonhos, as verdades e as vontades de quem começou do início a escrever a história de um país, com pessoas já cheias de histórias e tradições.


(Esta é apenas parte do monumento inaugurado.) O monumento parece um conjunto de várias campas fúnebres, mas onde na realidade não jaz ninguém, porque muitos dos corpos nunca chegaram a ser encontrados. Soube-se apenas que os guerrilheiros foram capturados pelas tropas indonésias.


O momento do hastear da bandeira. Em Portugal, manda a tradição que a bandeira suba depressa e desça lentamente. Mas esta subiu devagar, muito devagarinho, ao mesmo tempo que se refletia sobre o significado de ter uma bandeira para hastear.


Voltemos à comida! Os aperitivos ao almoço:


Em cima, kuerambo. Não sei explicar bem como se faz. Leva farinha e água. São feitos uns fios com uma rede, depois é frito. É doce, é crocante e é bom. Em baixo, banana chips. Estão a ver aqueles aperitivos de banana seca que há em Portugal? Nada a ver! Isto é óptimo.
Para o almoço houve carne, peixe no forno, bacalhau à brás (oh yeah, baby!), arroz assim, arroz de outra maneira, marisco, legumes cozinhados e crus. Pudins e bolo. Tudo buffet!

Depois de almoço, vieram as danças. Primeiro as tradicionais, depois as de todos. (Sim, sim. Até eu e o David, que por inexperiência e falta de jeito tivemos de ser ajudados por timorenses a sério para perceber como é que afinal isto se faz!) Aqui dança-se como quando se pisava o arroz, em roda. Aqui dança-se quase quietinho, mas os pés mexem-se de maneiras complexas. A música é quaternária, mas os pés estão em ternário. É Ásia! (Ah! Já agora, se por falta de som tiverem, por momentos, vontade de comparar ou imaginar música africana, não façam isso. Não tem nada a ver, ok?)


Durante a cerimónia foram chamados todos os presentes que não eram da aldeia para receber o TAIS. Aqui estamos nós:


E foi assim! Mais um dia na Terra onde Nasce o Sol.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A alegria da vida


Diz-nos o nosso amigo Asato no seu português incompleto que "timorense quer festa! Quer dança! Quer vinho!" De facto, ainda só estamos em Dili há duas semanas, mas este é um bitaite que já podemos arriscar acerca da cultura timorense: os eventos que mais mobilizam as pessoas são as festas. 

Por exemplo, no instituto onde trabalhamos todos estão ocupadíssimo com os preparativos para a cerimónia de graduação. Todas as pessoas estão de algum modo envolvidas no planeamento e é tudo pensado ao pormenor para que o evento seja perfeito. Outro exemplo: na semana da nossa chegada fomos logo convidados para o casamento de um colega. Em Portugal seria estranho e inadequado um convite destes. Mas aqui todos são bem-vindos à festa. Estavam presentes mais de mil pessoas e todo o evento foi muito curioso e grandioso.  

Reflexo do mesmo fenómeno são os serviços religiosos. Talvez não tão efusivos como os coros africanos, mas os cânticos na igreja são alegres e as pessoas parecem nascer com dom natural para cantar. A congregação canta a vozes sem ensaios. É magnífico! No domingo fomos espreitar a Catedral Católica e estava a haver missa. Ali o coro era mais clássico e também lindíssimo. É uma outra maneira de fazer a festa!

A preparação das festas exige muita energia, tempo, detalhes. O nosso olhar ocidental pode ter tendência a criticar este exagero, pois a produtividade parece ficar relegada para segundo plano. Mas talvez nós, ocidentais, tenhamos algo para aprender com o povo timorense. Este é um povo que sofreu num passado próximo e talvez hoje esteja mais apto a reconhecer a necessidade de celebrar a vida. Ao ponto de nesta cultura até os funerais serem uma ocasião de grandes ajuntamentos, comida e bebida para toda a gente. É a festa do luto, portanto.

Este traço da cultura timorense tem trazido à minha memória um poema do Joaquim de Almeida, ao qual o Luís Represas dá voz:


Enquanto mortos e vivos

Enquanto
Enquanto vivos ou mortos
Nós somos
Os vivos que querem viver
Por enquanto
Temos os mortos que não tiveram tanto

Enquanto vivos
E vivos assim
Sentimos vozes 
Por ti e por mim
Que a noite e o dia
Não cabem no sermos
De sermos o mesmo
De todos os dias

Enquanto caem palavras
Do cimo de torres
Gemidos do fundo de heróis
Vão calando a noite

Crianças de uniforme grande
Limparam o mundo de risos
Deixando espalhados nos cantos
Bocados de paz

Enquanto todos os dias
Nos vendem
O sofrimento de longe 
Tão perto
Vão consumindo o azul
E as cores da terra
Sabendo nós que a paz
Não é só o contrário da guerra

Enquanto vivos
E enquanto formos
Grita a vontade
De deixarmos vivos
Os cheiros e as imagens
Que sentimos
E não só lembranças
Deixadas em arquivo

Enquanto morrem as árvores
O verde
Torna-se terra de corpos
De guerras.
Queremos tambores e guitarras
Voando nas ruas
Com a alegria da vida
Que não devia ter fim


O verde timorense tornou-se terra de corpos e de guerras durante muito tempo. Mas aqueles que ficaram vivos querem, hoje, tambores e guitarras voando nas ruas. Querem a alegria da vida que não devia ter fim. E não é isto que todos queremos?

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Água de côco







Hoje disse a uns colegas que nunca tinha bebido água de côco directamente de um côco. Muito estranho, isso. "Mas quê? Lá em Portugal há água de côco na garrafa?" Há sim! (Muitos risos.) "Não pode ser, Sra. Débora. Tem de beber água de côco no côco." Ao final da tarde fizemo-lo.
Na companhia dos nossos novos amigos, a família Guerreiro, que nos levaram ao sítio certo para esta nova experiência.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A Esmeralda



Creio que este seja, talvez, o edifício mais bonito de Díli. A Mesquita. As torres verdes, por entre telhados e palmeiras, são bem visíveis da praia. Já as tínhamos visto várias vezes, mas só hoje nos aproximámos. É preciso entrar num suku, numa transversal à marginal. Estava à espera de encontrar um sítio calmo, muito calmo. Em vez disso, havia um treino de futebol no recinto. Corrida e gritos, passes de bola e diversão.
Queria aproximar-me mais, mas toda a gente estava a olhar para nós. E já não sei se olham porque sou branca, ou porque estou a fazer alguma coisa de errado. Malae mutin, que significa "estrangeira branca", estou sempre a ouvir.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

A capital

Na marginal de Dili, onde moram os embaixadores e os melhores restaurantes da cidade, olhamos para sul e os olhos batem nas montanhas imponentes que vigiam sobre a cidade. Ficamos então com a impressão que a cidade é pequena, apertada pelo mar e os coqueiros de um lado e pela montanha do outro. Trata-se, no entanto, de uma ilusão. 

Já tivemos oportunidade de fazer alguns tours pela cidade. De carro com os amigos brasileiros, de jipe e carrinha com o Asato, motorista alegre e simpático da Fundação ou de mota com os amigos portugueses. Esses passeios revelaram ruas, ruelas e becos intermináveis. As montanhas parecem então recuar para dar espaço a mais um bairro, mais um suku, mais um emaranhado de caminhos nos quais seria fácil ficarmos perdidos se por ali andássemos sozinhos. 

As construções são heterogéneas, mas são térreas, à excepção do novíssimo Ministério das Finanças - um prédio alto, moderno, envidraçado que muito destoa na paisagem. Há ruas asfaltadas e outras de terra batida. Há moradias de boa construção, sobretudo na zona central da cidade, e há também casas mais modestas, casas pobres, barracas. Há lojas de conveniência por todo o lado: para comprar uma bebida ou um lenço de papel caso o nariz comece a sangrar com o calor! Há também supermercados grandes, onde podemos encontrar praticamente tudo (leite e iogurtes são raridades e, por vezes, os preços são proibitivos).

O trânsito é caótico: jipes e motas ziguezagueam pelas estradas em movimentos aparentemente aleatórios. Mas no fim todos chegam milagrosamente ao destino. É de espantar que o número de acidentes não seja superior, mas talvez lhes esteja nos genes a aptidão para este tipo de condução, o tipo asiático (na Indonésia pareceu-nos semelhante). Um concurso que os estrangeiros podem levar a cabo por aqui é ver quem consegue detectar a mota com o maior número de passageiros: por esta altura os nossos olhos já se habituaram à imagem de pai, mãe e duas crianças a viajar na mesma mota.

O calor é omnipresente. Um calor seco, muito intenso por volta da hora de almoço, comparável aos dias mais quentes de todos os dias quentes que Lisboa conhece (este ano não tanto!). Por agora o sol também é omnipresente.

Durante o dia a cidade vibra, cheia de vida, mas simultaneamente transpira e boceja, por conta do calor. Dili é, para nós, um mundo novo. Um mundo que nos desconcerta numa ruela e nos encanta no cruzamento seguinte. 

domingo, 12 de outubro de 2014

Cristo Rei





Braços abertos para Dili.
Braços abertos para o oceano.
Braços abertos para o mundo.

Braços abertos, prontos, graciosos,
Para a todos abraçar.

Símbolo do amor permanente do Cristo vivo,
Estático somente nas construções dos homens.

sábado, 11 de outubro de 2014

Oceano Pacífico




Estávamos para ir à praia da Areia Branca mas a Sra. Maria aconselhou-nos a praia do Cristo Rei, porque tinha menos pessoas. Tinha toda a razão. Que tarde sossegada! Só nós, mais dois casais de malaios e umas 15 crianças.
Quando entrámos na água as crianças começaram a aproximar-se de nós e a falar muito. Não entendíamos quase nada, à excepção de malaio, malaio, malaio... Então pergunto: "Ita naran saa?", que significa "Como te chamas?" Faz-se silêncio. Depois muitos risos! "Oh! Eles falam tétum! Eles falam tétum!" Não falamos, ainda. Mas como eles não precisavam de saber, perguntei: "E vocês, não falam português?" "Sim, falamos." "Então e como te chamas?" "Chamo-me David." "David? Ele também!" - aponto para o David. Mais risos. Então passámos o resto do tempo a ouvir: "David? Malaio David?"

Malaio significa estrangeiro. Um malaio por estes lados ainda causa alguma estranheza, especialmente se for à praia e tomar banho, coisa que só as crianças e muito poucos adultos têm o hábito de fazer aqui.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Good morning, Mr. Crocodile



Conseguem ver a silhueta do crocodilo na fotografia? Assim nasce a lenda da ilha de Timor. A ilha do crocodilo.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Aqui é preciso acordar Deus

"Deus não dorme", ouvimos sempre por aí.

Hoje fomos à igreja pela primeira vez. Participámos num estudo bíblico sobre o livro de Salmos. Ou Salmu, em tétum. Ou Mazmur, em Bahasa indonésio. Participar é força de expressão: tentámos apanhar algumas pitadas. Até percebemos o fio condutor. Quando estávamos na igreja começámos a ouvir muito barulho. Muitas pessoas a baterem com varas de ferro nos portões ou nos tachos...

"O que é isto?" (Assustados!)

O missionário brasileiro explicou: "É que aqui, quando há um terramoto ou uma lua de sangue, as pessoas fazem barulho para acordar Deus, para Ele se lembrar que há pessoas na Terra e, assim, não destruir tudo."

O barulho continuou, por longos minutos, até a lua já não estar vermelha.

Aqui é preciso acordar Deus...

Ou por outra, aqui também é preciso dizer que Deus não dorme e que Ele é sempre bom.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Kulu






Kulu é uma árvore que está no quintal do IOB, onde trabalhamos e moramos, também. Perguntaram-nos como a fruta se chamava em português mas, na verdade, nunca tínhamos visto nada igual. Também nunca tínhamos provado nada igual! Ao tentar fazer uma comparação muito má do sabor, arriscaria um "meio ananás", "meio melão". Muito bom! Muito doce.
Por fora a casca deita uma espécie de resina que cola mesmo. Quando ainda está verde e muito pequeno (com a aparência de um pepino) é usado para fazer um molho para a comida. Disseram-nos que nas montanhas também há esta árvore e que lá os frutos chegam a pesar 20kg, 30kg.
Pediram-nos para regar a árvore ao anoitecer. Em casa eu deixava sempre morrer o vaso da salsa e dos coentros... Mas já regámos a árvore do Kulu duas vezes!

domingo, 5 de outubro de 2014

O início e o fim do primeiro dia



O café é tão bom! Não estamos habituados a bebê-lo desta forma, mas o sabor é completamente diferente, para melhor.



Este foi o pôr-do-sol de hoje. As luzinhas são Díli. A fotografia foi tirada na subida para o Cristo Rei, que fica numa das pontas da cidade.